Animais peçonhentos e venenosos
Animais peçonhentos (em inglês, venomous) são aqueles que possuem glândulas de veneno que se comunicam com dentes ocos, ou ferrões, ou aguilhões, por onde o veneno passa ativamente, como serpentes, aranhas, escorpiões, abelhas e arraias.
Animais venenosos (em inglês, poisonous) são aqueles que produzem veneno, mas não possuem um aparelho inoculador (dentes, ferrões) provocando envenenamento passivo por contato (taturana), por compressão (sapo) ou por ingestão (peixe baiacu).
Note que os termos são usados em português de forma exatamente contrária ao inglês!
Serpentes peçonhentas e não-peçonhentas
O veneno das cobras, ou peçonha, é uma secreção tóxica das parótidas – as glândulas de veneno, que situam-se abaixo e atrás dos olhos e estão em conexão com as presas inoculadoras. É um líquido viscoso, branco (levemente turvo) ou amarelo, resultante de uma mistura de muitos protídeos, uns tóxicos e outros inócuos, e de substâncias orgânicas e inorgâncias micromoleculares.
A reduzida mobilidade das serpentes torna necessário um meio para deter os movimentos da sua vítima, de modo a poder ingeri-la. Daí a função paralisante da peçonha neurotóxica encontradas em muitas serpentes.
Em outras cobras, o veneno não serve somente para matar a caça, mas possui também ação digestiva, atuando no desdobramento das substâncias orgânicas através de fermentos digestivos muito ativos. A digestão é facilitada pela inoculação da peçonha, anterior à ingestão da vítima.
As cobras chamadas não-venenosas ou não-peçonhentas – 81% das espécies conhecidas – têm presas não-articuladas. Produzemum veneno que aflora em sua cavidade bucal e atua na digestão do alimento, mas não possuem presas inoculadoras para introduzir a peçonha na vítima.
Na Europa e África, as serpentes venenosas podem ser identificadas por ter pupilas verticais e cabeça triangular, mas essa regra não se aplica na América do Sul, inclusive no Brasil. A jibóia tem cabeça triangular, mas não é venenosa, ao passo que a coral verdadeira é venenosa, mas não tem cabeça triangular.
No Brasil e em toda a América do Sul, a identificação só pode ser feita pela fosseta loreal, orifício localizado entre o olho e a narina que atua como uma visão infravermelha, capaz de perceber variações de calor num raio de até 5m e detectar a presença, tamanho, distância e movimentos de animais de "sangue quente" (aves e mamíferos). Com exceção da coral, todas as serpentes venenosas brasileiras possuem fosseta loreal.
A grande maioria das corais brasileiras apresenta anéis coloridos no corpo (vermelhos, amarelos, brancos e pretos). Algumas serpentes não-peçonhentas, conhecidas como falsas-corais, são muito parecidas com as corais verdadeiras. No Brasil e América do Sul, para não correr riscos, é melhor considerar toda serpente que possua fosseta loreal ou anéis coloridos no corpo como peçonhenta.
No Brasil de hoje, a cada ano registram-se cerca de vinte mil casos de acidentes por picada de cobra e destes 110 evoluem para óbito – em 60% dos casos, devido a atendimento tardio. Geralmente as cobras picam do joelho para baixo. O uso de botas de cano alto evita 75% dos acidentes. Antes de calçá-las, é bom verificar se não há cobras, aranhas ou escorpiões escondidos. Outros 20% dos acidentes ocorrem nas mãos e braços, ao se enfiar as mãos em tocas, troncos ocos, cupinzeiros ou outros locais que possam abrigar animais peçonhentos. Também não se deve atender às necessidades fisiológicas em lugares como esses.
Naturalmente, também não se deve manipular intencionalmente cobras que possam ser venenosas, a menos que se seja um especialista treinado. Presas extraídas voltam a crescer e mesmo serpentes mortas há horas – ou mesmo suas cabeças decapitadas – podem, por reflexo, picar e injetar veneno
Quintais, plantações e terrenos que acumulam lixo e vegetais podres atraem ratos, e ratos atraem cobras. Desmatamentos e queimadas também podem provocar mudanças nos hábitos dos animais, que acabam buscando refúgio em celeiros, paióis e dentro das casas. A lendas que diz que certas cobras mamam leite nas vacas deve-se ao fato de que caçam os ratos que vivem em estábulos. É mais fácil ser picado por uma cobra em um sítio mal cuidado ou dentro de uma cabana cheia de ratos do que na selva.
Em mares onde há serpentes marinhas venenosas (Índico e Pacífico) a maioria das picadas ocorre em pescadores que acidentalmente as capturam nas suas redes, ou em pessoas que distraidamente as pisam na praia.
Emas, seriemas, gaviões, gambás e a cobra muçurana são os principais predadores naturais das serpentes peçonhentas no Brasil.
Cerca de 20% a 40% das picadas de cobras peçonhentas em defesa própria são “secas”, ou seja, não inoculam veneno em quantidade significativa. As glândulas de peçonha levam 15 dias para se completarem. A quantidade de veneno inoculada depende do período entre uma picada e outra, bem como da primeira e das subseqüentes picadas, quando realizadas no mesmo momento.
A maioria das cobras pica apenas uma vez, a menos que seja perseguida ou atacada. A exceção é a taipã australiana, que ataca várias vezes seguidas, até esgotar seu veneno.
O bote das cobras geralmente alcança o equivalente à metade do seu comprimento. A maioria das cobras é demasiado lenta para alcançar um ser humano que corra delas. A exceção é a mamba negra africana, capaz de se deslocar a 6 metros por segundo (20 km/h).
Tipos de peçonha e de veneno
Uma reação leve a veneno urticante – a normal para picadas isoladas de formigas, abelhas, vespas, marimbondos e mamangavas – é uma forte sensação de queimadura, seguida de inchaço e vermelhidão no local da picada ou queimadura, que pode durar minutos ou horas; pode ser aliviada com gelo ou amônia. Uma reação alérgica moderada pode durar alguns dias e resulta em dor mais forte e inchaço que se estende a áreas vizinhas. Pode-se aplicar anti-histamínicos e ministrar corticóides, sob recomendação médica.
Uma séria reação alérgica começa alguns minutos depois da picada e afeta o corpo inteiro. A pessoa pode sentir náuseas, tonturas, fraqueza. Depois, espasmos, diarréia, coceira nos olhos e nariz, tosse, sensação de calor, vômitos e inchação do rosto e do corpo. Em seguida, pode haver dificuldade de respirar e engolir, queda de pressão e inconsciência. A maioria das mortes por esse motivo ocorre em cerca de 30 minutos, mas às vezes em menos.
Pessoas hipersensíveis – cerca de 1% da população – precisam ter à mão uma dose de adrenalina injetável, para aplicação imediata, anti-histamínicos e um torniquete para conter a difusão do veneno pelo corpo até que se possa conseguir ajuda médica. Pessoas normais que sofrem um grande número de picadas podem ter os mesmos sintomas e precisar do mesmo tratamento. Em alguns países, como os EUA, as picadas de insetos matam mais pessoas por ano que as de cobras e aranhas.
Efeitos semelhantes podem ser provocados por insetos e aracnídeos que não injetam ativamente esse veneno, mas provocam envenenamento passivo por contato. Os exemplos mais comuns no Brasil são as taturanas (larvas peludas de borboletas e mariposas). Os seringueiros da Amazônia, expostos a contato freqüente com taturanas urticantes (Premolis sp.), também desenvolvem reações crônicas, principalmente artrites.
Outro exemplo é o das caranguejeiras (Grammostola sp. e Pamphobeteus sp.). Estas aranhas cabeludas e de grandes dimensões, com ferrões grandes, são responsáveis por picadas extremamente dolorosas, mas não venenosas. Seu veneno está em pelos urticantes no abdômen dorsal, que provocam forte irritação. São comuns na Amazônia e em outras partes do Brasil.
Esse tipo de veneno também está presente nas anêmonas, medusas, caravelas-portuguesas, na maioria das águas-vivas e em alguns corais e ouriços do mar.
O veneno hemotóxico raramente mata um adulto saudável, a menos que a serpente consiga dar várias picadas ou atingir uma veia. Mas tem efeitos horríveis e que freqüentemente exigem a amputação do membro atingido, para evitar a morte por septicemia. Mesmo quando isso não ocorre, cicatrizes e seqüelas permanentes são prováveis. Geralmente, as cobras que possuem esse tipo de veneno possuem presas longas e muito eficazes: 70% a 80% das picadas inoculam a peçonha.
As exceções são a boomslang e a cobra-cipó, serpentes arbóreas africanas cujas presas estão no fundo da boca. Estas geralmente só picam pessoas que as manipulam descuidadamente.
O tipo mais comum provoca o equivalente a uma pré-digestão da carne da vítima: os vasos sangüíneos perdem sua capacidade de reter o sangue e a capacidade de coagulação e o sistema imunológico são anulados. Ocorre hemorragia dos capilares, a carne se enche de líquidos e é destruída por bactérias (gangrena). Pode haver sangue na urina devido a hemorragias internas nos rins e, em casos graves, morte por falência renal.
No local da picada, há dor intensa, edema, bolhas, inchaço e necrose dos tecidos. O paciente sofre também de hemorragia pelas mucosas (estômago, intestino, rim, boca, ouvido, útero), lesão dos tecidos (gangrena), taquicardia e alterações nervosas. A recuperação total de uma picada pode demorar meses.
A morte, quando ocorre, geralmente leva dias. Algumas pessoas, porém, entram em estado de choque ou ter sintomas de ansiedade que podem não só ser confundidos com o efeito de venenos neurotóxicos, como de fato matar em poucos minutos, principalmente em regiões onde há lendas e tradições exageradas sobre cobras. É o que acontece com a chamada “víbora de cem passos” da Ásia – cujas vítimas supostamente morrem antes de caminhar essa distância – e com a víbora serrilhada, encontrada na Ásia e África. Existe mesmo uma lenda asiática sobre uma “víbora de dois passos”.
Alguns venenos hemotóxicos, como o do ornitorrinco e o de certas víboras, têm o efeito contrário: provocam a coagulação do sangue, que pode resultar em tromboses fatais.
No Brasil, há dois tipos de venenos ofídicos hemotóxicos – o botrópico e o laquético. Seus efeitos são muito semelhantes, mas exigem soros diferentes. O veneno botrópico responde pela grande maioria dos acidentes no Brasil; é produzido por cobras como a jararaca (Bothrops jararaca), jararacuçu (Bothrops jararacussu), urutu (Bothrops alternatus), cotiara (Bothrops fonsecai) e caiçaca (Bothrops moojeni), que existem em todo o Brasil e em todo tipo de terreno e vegetação. O veneno laquético é o da surucucu ou pico-de-jaca (Lachesis muta), encontrada na Amazônia e na Mata Atlântica, do Rio de Janeiro até a Paraíba. Cobras venenosas grandes, como a surucucu e a urutu, têm uma glândula da peçonha mais avantajada e costumam ser mais agressivas.
Fora do Brasil, outras cobras com venenos semelhantes (mas que também exigem antídotos específicos) incluem a maioria das víboras (família Viperidae) encontradas na Europa, Ásia e América do Norte, as cascavéis, mocassins e copperheads norte-americanas, a habu, encontrada na Ásia (principalmente China) e as africana boomslang e twig snake.
Duas espécies de lagartos também possuem venenos hemotóxicos: o monstro de Gila (Heloderma suspectum), que vive nos desertos do Sudoeste dos EUA e noroeste do México e o lagarto-escorpião ou lagarto perolado (Heloderma horridum), das selvas do México e América Central. De certa forma, são piores do que as serpentes, pois em vez de picar e largar a vítima, continuam agarrados a ela e mastigando sua carne, até que sejam mortos ou gravemente feridos (queimá-los na garganta também funciona).
Algumas aranhas também possuem veneno hemotóxico. Um exemplo é a aranha marrom (Loxosceles sp.) com 1 cm de corpo e pernas longas e finas. É encontrada em pilhas de tijolos, telhas, barrancos e nas residências. Adora se esconder nas roupas e pica quando é comprimida contra o corpo. Na hora quase não causa dor e às vezes a pessoa nem sabe que foi picada. A partir de 12 horas após a picada, porém, surge a dor local, inchaço, mal-estar geral, náuseas e febre. Pode levar à gangrena e à necrose.
A tarântula (Lycosa sp.), conhecida também como aranha de jardim e aranha de grama, também inocula um veneno hemotóxico. Provoca sensação de queimadura, eritema e edemas e a necrose local pode abrir caminho para a infecção por tétano. Pessoas sensíveis podem ter sintomas semelhantes ao de uma picada de cobra. Com até 3 cm de corpo e 5 cm de pernas, possui no dorso do abdômen um desenho parecido com uma ponta de flecha. Não há tratamento específico.
Centopéias (Cryptops sp., Otostigmus sp. e Scolopendra sp.), conhecidas também como lacraias, inoculam venenos hemotóxicos que provocam sangramento, inchaço e necrose superficial e, em algumas pessoas, também ansiedade, vômitos e mal-estar geral. Não há tratamento específico.
O ornitorrinco macho possui, nas patas traseiras, esporões que injetam um veneno hemotóxico, cuja função é puramente defensiva. Ao contrário do veneno da jararaca, provoca a coagulação do sangue, em vez de impedi-la. Provoca inchação e forte dor por até três meses, contra a qual nenhum anestésico (nem sequer a morfina) é eficaz. Normalmente, não é fatal a seres humanos.
Certas taturanas (Lonomia sp.) também possuem um veneno de tipo hemotóxico. Além da imediata sensação de queimadura, podem surgir, duas a 72 horas depois do contato, equimoses, hematomas, sangramento nas gengivas e sangue na urina. Não há soro disponível para este tipo de veneno.
O veneno neurotóxico ataca o sistema nervoso, provoca paralisia e é o mais perigoso, pois pode matar em questão de horas por asfixia. A gravidade da picada aumenta com a proximidade dos centros nervosos (cérebro). Por outro lado, a maior parte das cobras que possui esse tipo de veneno tem presas curtas e pouco móveis, de forma que apenas 50% das picadas inoculam de fato a peçonha.
No Brasil, o tipo mais conhecido é o veneno elapídico, da coral verdadeira. De ação puramente neurotóxica, é relativamente raro: apenas 2% dos acidentes. Essas cobras existem em todo o Brasil, em qualquer terreno, mas são tímidas e suas presas não consegue penetrar roupas. A maioria dos acidentes ocorre em pessoas que as manipulam intencionalmente. Os sintomas podem demorar 12 horas para aparecer: o paciente apresenta dor intensa no local da picada, salivação abundante, lacrimejamento, perturbações nervosas, queda das pálpebras, tremura e angústia, respiração difícil, pele azulada, andar cambaleante, cansaço, dores musculares, dificuldade em articular as palavras, ligeiras perturbações visuais. A morte vem por asfixia.
Outras serpentes com veneno neurotóxico são a krait da Índia e Sudeste Asiático, as najas asiáticas e africanas, as mambas africanas, a taipã australiana e as serpentes marinhas do Sudeste asiático. Com exceção da krait, também considerada tímida, essas cobras são mais agressivas e perigosas que a coral.
Embora sua picada não seja particularmente dolorosa, o veneno da serpente marinha é o mais potente de todas as cobras, seguido pelo da taipã. Em média, a picada dessas cobras mata em seis a doze horas. Se o veneno é injetado diretamente numa veia, pode matar em menos de uma hora.
Algumas espécies de naja podem cuspir seu veneno a certa distância (até 3 m), geralmente visando os olhos da vítima. Se acerta, isso causa dor intensa, perturbação da visão e, às vezes, cegueira permanente.
Entre as aranhas, a de veneno neurotóxico mais perigoso é a viúva-negra (Lactrodectus sp.). O tratamento envolve a aplicação de soro específico e de analgésicos poderosos.
Mais comuns no País e igualmente perigosos são o escorpião amarelo (Tityus serrulatus), com uma mancha escura e uma serrilha no fim da cauda e escorpião preto (Tityus bahiensis), também conhecido como escorpião marrom, de cor escura e cauda avermelhada. Ambos são de hábitos noturnos e escondem-se durante o dia sob madeiras ou pedras, ou em cupinzeiros e também freqüentam casas. A vítima pode apresentar náuseas ou vômitos, sudorese intensa, salivação, tremores e aumento da pressão arterial. Existe soro antiescorpiônico.
Outro exemplo é a aranha armadeira (Phoneutria sp.), que causa a maioria dos acidentes com aranhas no Brasil. Com até 5 cm de corpo e até 15 cm de envergadura de pernas, vive em folhagens, bananeiras e dentro de casa e é reconhecida pela posição “em pé" sobre as patas de trás. O veneno age no sistema nervoso periférico, causando dificuldade respiratória e tremores musculares, mas não atinge o sistema nervoso central. Em crianças e ocorrências graves com adultos, aplica-se o soro antiaracnídico, depois de prova de alergia.
O peixe fugu (espécie japonesa de baiacu), também possui um forte veneno neurotóxico, mil vezes mais potente que o cianureto. O sashimi de fugu sai pelo equivalente a 150 a 200 dólares, mas só deve ser preparado por especialistas bem treinados, que sabem como extrair a glândula que contém o veneno. Cerca de 60% das pessoas que ingerem o baiacu sem que o veneno tenha sido devidamente eliminado morrem de falência respiratória em 6 a 24 horas, depois de sentir sintomas como fraqueza, tontura, boca e língua formigantes, náusea, diarréia, suor, paralisia, convulsões e sufocação.
Há uma espécie de água-viva, Chironex fleckeri, encontrada no litoral norte da Austrália e na região Indo-Pacífica, que possui um veneno neurotóxico, cardiotóxico e dermatonecrótico, capaz de matar uma pessoa de insuficiência respiratória em cinco minutos. Os sobreviventes sofrem sérias queimaduras na pele, que geralmente deixam cicatrizes permanentes. É provavelmente o animal venenoso mais perigoso da Terra.
Uma espécie australiana de polvo, Hapalochaena maculosa, também causa ferroadas neurotóxicas em pessoas que o perturbem, casualmente ou propositalmente.
O veneno misto tem efeito hemotóxico e neurotóxico ao mesmo tempo, o que pode dificultar o diagnóstico. O componente neurotóxico é geralmente o mais perigoso, mas podem tanto aparecer os sintomas de hemorragia quanto os de paralisia. Isso pode resultar em tratamento não apropriado, principalmente em lugares onde outros tipos de picada são mais comuns.
Além disso, em alguns casos, como o da víbora do Gabão, a picada não provoca dor intensa – a picada pode não ser percebida ou ser confundida com a de um inseto, até que a vítima morre sem receber soro antiofídico. É o caso de certas cascavéis (incluindo a brasileira e a do deserto de Mojave, nos EUA) e da dabóia ou víbora de Russell, encontrada no sul da Ásia.
No Brasil, o único tipo de veneno misto é o crotálico, produzido pela cascavel tropical. Bem mais perigosa que as espécies norte-americanas, é encontrada nas regiões de campo do Centro, Sul, Nordeste e da Amazônia, mas nunca no interior das florestas e responde por 18% dos acidentes ofídicos no Brasil. É considerada principalmente neurotóxica, mas também tem alguns efeitos hemotóxicos. A picada não produz dor marcante, mas o paciente apresenta fraqueza progressiva e rápida, queda das pálpebras (“cara de bêbado”), perturbações visuais até a cegueira, paralisia dos músculos do pescoço (cabeça caída), vômitos, diarréia, cheiro de urina, urina sanguinolenta; pulso fraco e sonolência. A morte vem por paralisia do sistema respiratório e ocorre em 75% dos casos não tratados. A peçonha crotálica é mais tóxica do que a botrópica, mas ambas são menos perigosas que a elapídica.
No mar, ferroadas das arraias, peixes-pedras e escorpiões-do-mar inoculam veneno do tipo cardiotóxico. Afeta o sistema cardiovascular, o que pode produzir tanto palidez como vermelhidão no corpo, espasmos, arritmia cardíaca e, eventualmente, parada cardíaca. Água quente (50ºC) por 30 a 60 minutos decompõe esse veneno, mas também há risco de infecção, que pode exigir antibióticos e vacina antitetânica. A ferida provocada pelo ferrão é, em si, séria e pode levar meses para ser completamente curada.
O veneno que os sapos e algumas rãs segregam através da pele também é cardiotóxico e pode matar por parada cardíaca, depois de fortes constrições musculares, paralisia, salivação e dispnéia. Normalmente só são fatais para animais (incluindo cães domésticos) que os comem. Seres humanos geralmente só são afetados quando manipulam sapos e acidentalmente levam o veneno aos olhos ou à boca, normalmente em doses não fatais, mas há histórias sobre rãs tão venenosas que é possível morrer só por tocá-las.
O curare, veneno usado pelos índios em suas flechas e zarabatanas, é tirado de certas rãs, que costumam ser de cor berrante, com a qual advertem os predadores de que são perigosas. Uma das mais conhecidas é a Phyllobates terribilis, de cor dourada e de 1 cm a 5 cm de comprimento, usada pelos índios da Colômbia. A pele de uma só dessas rãs contém veneno suficiente para matar 20 mil camundongos ou 100 homens adultos. O veneno de uma seta ou zarabatana permanece ativo por até dois anos.
Tratamento
O uso de uma bandagem elástica 5 cm a 10 cm acima da picada, no membro atingido, pode retardar a difusão de veneno neurotóxico para o resto do corpo até que seja aplicado um tratamento mais eficaz e é recomendado em países em que esse tipo de picada é o mais freqüente, como na Austrália. Mas, quando se trata de venenos hemotóxicos (o mais comum no Brasil), tende a agravar o quadro de gangrena, principalmente quando se usa um torniquete apertado.
A prática de fazer incisões e sugar o veneno é controvertida. Experiências em cães mostraram que essa prática pode tirar até 50% do veneno, mas não há evidência segura de que isso seja benéfico a seres humanos. Pode introduzir bactérias na ferida e danificar vasos, agravando a gangrena provocada por venenos hemotóxicos. Além disso, pode provocar edemas na boca de quem suga, a ponto de criar risco de sufocação. Sugar veneno com seringa é menos perigoso, mas parece ser ainda menos eficaz.
No Brasil, os médicos recomendam aos leigos não tentar nenhum tipo de tratamento a não ser imobilizar o paciente tanto quanto possível (os movimentos aceleram a difusão do veneno) e levá-lo a um hospital para que lhe seja administrado soro antiofídico sob controle médico. Normalmente, são necessárias cinco a vinte frascos de soro, injetados em doses crescentes durante quatro a seis horas. Ministrar soro em campo não é recomendado, porque não é possível dispor de quantidades adequadas, nem tratar um eventual choque anafilático.
O soro pode ser líqüido, conservado e geladeira por até três anos, ou liofilizado (em pó), que se conserva por até cinco anos. Nesta segunda modalidade, custa 20% a mais, mas é mais facilmente conservado. No Brasil, até recentemente, só se produzia o soro líqüido.
Ao contrário do que se pensa, o soro antiofídico não estimula a produção de anticorpos no organismo da vítima. Ele já contém anticorpos, retirados do sangue de cavalos hiperimunizados. Injeta-se o veneno da serpente no animal, em pequenas doses, fazendo com que o cavalo desenvolva os anticorpos.
Entretanto, o soro contém substâncias estranhas ao corpo do paciente. A pessoa submetida ao tratamento também desenvolve anticorpos contra o próprio soro. Os efeitos colaterais vão desde uma urticária ou insuficiência renal até o choque anafilático, que pode ser fatal. Por isso, costuma ser feito um teste alergênico antes da aplicação do soro antiofídico.
Cada país tem diferentes gêneros de serpentes, que exigem diferentes tipos de soro. Com 16 tipos de soro, consegue-se proteção contra 90% das serpentes peçonhentas existentes no mundo. No Brasil, são usados seis tipos:
Há também soros para uma só espécie de cobra. Sempre que a cobra pode ser identificada com certeza, é preferível usar o soro mais específico disponível, pois isso possibilita usar doses menores, evitando o aparecimento de reações alérgicas e reduz o tempo de recuperação do paciente. É particularmente importante para os pacientes que demoram mais de seis horas até chegar ao hospital, casos em que o tratamento precisa ser muito eficaz.
Para aracnídeos, é possível encontrar os seguintes tipos:
Histórico
No mundo real, em 1891 o francês Albert Calmette fundou na então Saigon, colônia francesa da Cochinchina (atualmente Cidade de Ho Chi Minh, no Vietnã), a primeira filial do Instituto Pasteur, onde estudou as serpentes locais. De volta à França, criou em Lille a segunda filial e lá, em 1895, produziu o primeiro soro antiofídico, que demonstrou que o veneno ofídico era capaz de provocar anticorpos no organismo, como as bactérias.
Dois anos depois, Vital Brazil, ajudante do Instituto Bacteriológico do Estado de São Paulo, começou a se dedicar com grande interesse ao estudo dos venenos das cobras existentes no Brasil, devido ao grande número de acidentes que ocorriam durante os trabalhos de desmatamento para plantação de café. O cientista se beneficiou da divulgação dos primeiros trabalhos de soroterapia de Calmette, que o orientaram no desenvolvimento de suas pesquisas para a produção de um soro contra a peçonha das serpentes brasileiras.
Acreditava-se, inicialmente, que o soro desenvolvido por Calmette, baseado em cobras naja (inexistentes no Brasil) era universal, ou seja, serviria para picadas de cobras de qualquer espécie. Mas Vital provou que tanto o veneno da jararaca quanto o da cascavel só poderiam ser neutralizados pelo soro específico de cada espécie, estabelecendo o conceito da especificidade da soroterapia. Pode-se dizer, portanto, que o uso da soroterapia no tratamento dos acidentes ofídicos se deve aos dois cientistas.
Ao assumir a direção do Instituto Serumterápico do Estado de São Paulo, Vital Brazil continuou com seus estudos sobre ofidismo. Em agosto de 1901, entregou para consumo os primeiros tubos de soros antipeçonhentos, em especial o antiofídico, mistura de dois soros: o antibotrópico, contra o veneno da jararaca, e o anticrotálico, para tratamento do veneno da cascavel. Até o advento do soro, 25% dos acidentes com cobras venenosas resultavam em morte. Hoje, o percentual é de apenas 0,4%.